A lei seca e o voto dos chatos
Não tem jeito, a hora chega. Garçons entram em cena, levantando mesas, cadeiras, atirando água com detergente aos nossos pés, produzindo no ar o clássico cheiro de desinfetante barato com restos de cerveja. É a constatação do fechamento da casa. A hora, como diria Vinícius, “em que a tristeza aproveita pra entrar”.
Acho que os casamentos também terminam assim. É como se do assoalho do coração subisse a indefectível fragrância de fim de caso. Como solidificado pela angústia, o perfume vira um nó na traquéia, obstruindo parte da garganta. Não deixa passar nada sólido, só líquido, de preferência alcoólico. É a constatação do fechamento dos ouvidos, dos botões do vestido e da abertura de um ensurdecedor silêncio que, por menos que dure, é o que mais se assemelha à eternidade.
E eterna também é a associação da dor-de-cotovelo com o boteco. Dos menestréis da idade média aos poetas cibernéticos, todos um dia já deram uma de Reginaldo Rossi, esvaziando copos de desilusão e enchendo o saco do garçom.
É nestes chatos indefesos que penso, quando ouço falar na lei seca que querem decretar em São Paulo. Onde os padecentes da dor-de-corno vão buscar tratamento? Onde estará o rapaz do banquinho e violão, a quem os abandonados com cara de Paulo César Pereio que perdeu a Sônia Braga no filme Eu Te Amo adoram gritar: “toca aquela do devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu”.
Concordo que estes exemplares da boemia estão desaparecendo, como há muito já sumiram a música, o filme, o Pereio e a Sônia Braga. Mas pelos poucos que restam, não acho justo. Se a razão para fechar as torneiras etílicas da cidade são os índices de violência, convém pensar nestas vítimas do abandono. Por mais inconvenientes que sejam, elas merecem uma chance de sobrevivência. A noite não será a mesma depois da extinção dessa espécie.
De tão estropiados que ficam, estes desiludidos se tornam incapazes de qualquer agressão. Só violentam a paciência de quem os escuta. Por isso, se a lei seca é inevitável, proponho ao prefeito José Serra a criação de um salvo conduto, garantindo o mínimo de qualidade de vida noturna a essa gente. Seria permitido ao portador do documento, beber a qualquer hora do dia ou da noite, atormentar garçons e crooners, tomar quantas saideiras quiser e só ser colocado para fora do estabelecimento à luz da manhã, com palavras amáveis e pelas mãos de simpáticas e gostosas hosts.
Do contrário, a aprovação do prefeito pela classe poderá ser comprometida. E em ano véspera de eleição vale lembrar: bêbados apaixonados também votam.
Acho que os casamentos também terminam assim. É como se do assoalho do coração subisse a indefectível fragrância de fim de caso. Como solidificado pela angústia, o perfume vira um nó na traquéia, obstruindo parte da garganta. Não deixa passar nada sólido, só líquido, de preferência alcoólico. É a constatação do fechamento dos ouvidos, dos botões do vestido e da abertura de um ensurdecedor silêncio que, por menos que dure, é o que mais se assemelha à eternidade.
E eterna também é a associação da dor-de-cotovelo com o boteco. Dos menestréis da idade média aos poetas cibernéticos, todos um dia já deram uma de Reginaldo Rossi, esvaziando copos de desilusão e enchendo o saco do garçom.
É nestes chatos indefesos que penso, quando ouço falar na lei seca que querem decretar em São Paulo. Onde os padecentes da dor-de-corno vão buscar tratamento? Onde estará o rapaz do banquinho e violão, a quem os abandonados com cara de Paulo César Pereio que perdeu a Sônia Braga no filme Eu Te Amo adoram gritar: “toca aquela do devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu”.
Concordo que estes exemplares da boemia estão desaparecendo, como há muito já sumiram a música, o filme, o Pereio e a Sônia Braga. Mas pelos poucos que restam, não acho justo. Se a razão para fechar as torneiras etílicas da cidade são os índices de violência, convém pensar nestas vítimas do abandono. Por mais inconvenientes que sejam, elas merecem uma chance de sobrevivência. A noite não será a mesma depois da extinção dessa espécie.
De tão estropiados que ficam, estes desiludidos se tornam incapazes de qualquer agressão. Só violentam a paciência de quem os escuta. Por isso, se a lei seca é inevitável, proponho ao prefeito José Serra a criação de um salvo conduto, garantindo o mínimo de qualidade de vida noturna a essa gente. Seria permitido ao portador do documento, beber a qualquer hora do dia ou da noite, atormentar garçons e crooners, tomar quantas saideiras quiser e só ser colocado para fora do estabelecimento à luz da manhã, com palavras amáveis e pelas mãos de simpáticas e gostosas hosts.
Do contrário, a aprovação do prefeito pela classe poderá ser comprometida. E em ano véspera de eleição vale lembrar: bêbados apaixonados também votam.

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