sexta-feira, novembro 18, 2005

Coisas da Floresta

Gosto de Manaus onde no fim dos anos 90 cheguei a morar. Também foi no Amazonas que, por uma noite, tive o privilégio de ser hóspede, em Barreirinhas, de Thiago de Mello. Numa conversa que invadiu a madrugada, aprendi com o autor dos Estatutos do Homem que a floresta tem a sua própria ordem natural, diferente da que rege as coisas dos mortais. Isso explica determinados fatos só acontecerem naqueles lados.
Semana passada voltei à capital amazonense. Dessa vez, me hospedei num hotel cujos fundos davam para o Teatro Amazonas que, desde o ciclo da borracha, vem sendo palco de históricas apresentações e atrações de interesse mundial. Agora, a imponente casa abrigava a versão 2005 do Amazonas Film Festival, um tributo internacional à sétima arte, com pouquíssima repercussão aqui pelo sul.
Ao lado daquele ícone cultural da região norte há, resistente como uma espécie amazônica, o bar do Armando, um botequim onde as mesas dividem a calçada com sedutoras prostitutas. Ali eu costumava tomar litros de cerveja, trocando filosofias baratas de fim de século. Seria bom matar saudades.
Esqueci o cansaço de três horas e meia de viagem e desci, já tarde da noite. Quando adentro as paredes de desconfortável amarelo, com as únicas intenções de rever o Armando e tomar uma cerveja, dou de cara com uma figura que eu sabia conhecer, mas estava certo de que não era dali. Cabelos brancos, um pouco desalinhados, algumas rugas, olhos miúdos e visivelmente incomodado pelo calor, tomava sozinho uma bebida transparente e com muito gelo. Poderia ser um turista ou um cientista do hemisfério norte, como tantos que desembarcam na Amazônia, em busca dos mistérios da biodiversidade. Só que aquele rosto me era muito familiar. Fingi indiferença e fui falar com Armando que depois de um abraço festivo não se conteve: “Viu quem está aí? Dizem que é do cinema e famoso. Um tal de seu Roman”.
Gelei com a queda da ficha. Momentos depois concluí como natural a presença dele ali. Mas no instante só lembrei do meu anfitrião de Barreirinhas, que me alertou para fatos que eu só presenciaria em Manaus. “Coisas da floresta...”, me diria o poeta. Distraindo a minha aversão à tietagem, me aproximei do senhor pedindo licença e estendendo-lhe a mão: “Nice meet you, Mr. Polanski”.