Ai de ti, Mulher-Gorila
Que me perdoem os muito modernos, mas a decadência é fundamental. Sou viciado no que fica ultrapassado sem perder de todo o glamour. Tanto que quando vou ao Rio, faço questão de me hospedar em Copacabana. Existe símbolo de decadência mais elegante do que o imponente Copacabana Palace?
Pensava que os charmosos passos do romantismo ultrapassavam em muito as fronteiras do bairro carioca. Acabei por descobrir que descer a ladeira com legitimidade e sem escorregar do salto é obra para perua internacional. Como Copacabana.
Semana passada fui a um Circo. Não um Grand Circo, com aquele cheiro característico, mistura de coco de elefante cansado com hálito de leão desdentado e urina de acrobatas entediados. Estes também dão verdadeiros shows de declínio nas curvas da modernidade.
O circo da vez tinha propriedades estranhas. A começar pela localização: rua Augusta, próxima à Consolação. Depois, sem animais. Descobri que circo moderno é assim, ecologicamente correto. A próxima surpresa foi o preço, 20 reais os adultos e 10 as crianças, o que naturalmente afastou a molecada genuína e grande parte da gostosa ansiedade preliminar.
Mas nem tudo estava perdido. A atração principal era um quadro que sempre tive vontade de assistir: Monga, a Mulher Gorila.
Disputada por circos mambembes dos anos 60, esta mórbida vedete povoou de terror os sonhos de muitas crianças da minha época. Confesso que no meu caso não passou de horror imaginário, porque nunca tive coragem de presenciar a tal metamorfose. Ouvia dizer que era jogo de luzes, truques primários. Mas, na dúvida, preferia manter-me seguro e distante de tamanha aberração.
Excitado por estar próximo à tardia satisfação da minha curiosidade, entrei e sentei na arquibancada de madeira que, para mais uma decepção, era coberta por uma longa almofada, proteção contra as fendas imortalizadas na piada do “senta que o leão é manso”.
Começa um espetáculo morno. As crianças, todas rosadinhas, com cara de quem come bifinho todo dia e habituadas a sofisticados jogos de computadores, não escondiam a intolerância ante os malabarismos ingênuos e trapézios tão baixos que redes de proteção tornaria a apresentação mais derrisória que as de David Copperfield depois do Mister M.
Quando a febre da expectativa já apresentava sinais de arrefecimento, anunciaram o tão esperado fenômeno. Monga, musa de antigos pesadelos, cúmplice da minha covardia, depois de décadas, estava prestes a me redimir. Um certo desconforto quase me pôs de pé a correr. Premonição de desilusão anunciada. Controlei. Afinal, era a última chance.
Rufam-se os tambores e meu coração dispara. Abrem-se as cortinas e fecham-se meus olhos, mais por adiamento do instante do que por medo. Quando abro, foco a mais patética das personagens. Até vestido colorido e peruca de sisal ela trazia. A Mulher-Gorila do século 21 não passa de um número cômico dos mais rudimentares. Um palhaço ensaiado para ridicularizar minha intenção, banalizar minha inútil tentativa de recuperar um passado. Quase me convence de que o palhaço não era exatamente ele.
Monga, a Mulher-Gorila que assustou, intrigou e habitou a fantasia da minha geração mudou.Tomou a direção do pedagogicamente correto, rezando mais nas cartilhas de Piaget do que nas de Zé do Caixão. Não me dei à paciência de avaliar a qualidade. Deixei o espetáculo antes do final, me sentindo ludibriado e com vontade de pegar a ponte aérea. Meu medo agora era outro. Não do sobrenatural, nem de ser o palhaço daquele sábado, daquele circo. Mas tive pavor de continuar a perder, principalmente tempo. Se a Mulher-Gorila já não existe nem entre o charme e a elegância das decadências, o que poderá acontecer quando eu voltar a Copacabana?
Pensava que os charmosos passos do romantismo ultrapassavam em muito as fronteiras do bairro carioca. Acabei por descobrir que descer a ladeira com legitimidade e sem escorregar do salto é obra para perua internacional. Como Copacabana.
Semana passada fui a um Circo. Não um Grand Circo, com aquele cheiro característico, mistura de coco de elefante cansado com hálito de leão desdentado e urina de acrobatas entediados. Estes também dão verdadeiros shows de declínio nas curvas da modernidade.
O circo da vez tinha propriedades estranhas. A começar pela localização: rua Augusta, próxima à Consolação. Depois, sem animais. Descobri que circo moderno é assim, ecologicamente correto. A próxima surpresa foi o preço, 20 reais os adultos e 10 as crianças, o que naturalmente afastou a molecada genuína e grande parte da gostosa ansiedade preliminar.
Mas nem tudo estava perdido. A atração principal era um quadro que sempre tive vontade de assistir: Monga, a Mulher Gorila.
Disputada por circos mambembes dos anos 60, esta mórbida vedete povoou de terror os sonhos de muitas crianças da minha época. Confesso que no meu caso não passou de horror imaginário, porque nunca tive coragem de presenciar a tal metamorfose. Ouvia dizer que era jogo de luzes, truques primários. Mas, na dúvida, preferia manter-me seguro e distante de tamanha aberração.
Excitado por estar próximo à tardia satisfação da minha curiosidade, entrei e sentei na arquibancada de madeira que, para mais uma decepção, era coberta por uma longa almofada, proteção contra as fendas imortalizadas na piada do “senta que o leão é manso”.
Começa um espetáculo morno. As crianças, todas rosadinhas, com cara de quem come bifinho todo dia e habituadas a sofisticados jogos de computadores, não escondiam a intolerância ante os malabarismos ingênuos e trapézios tão baixos que redes de proteção tornaria a apresentação mais derrisória que as de David Copperfield depois do Mister M.
Quando a febre da expectativa já apresentava sinais de arrefecimento, anunciaram o tão esperado fenômeno. Monga, musa de antigos pesadelos, cúmplice da minha covardia, depois de décadas, estava prestes a me redimir. Um certo desconforto quase me pôs de pé a correr. Premonição de desilusão anunciada. Controlei. Afinal, era a última chance.
Rufam-se os tambores e meu coração dispara. Abrem-se as cortinas e fecham-se meus olhos, mais por adiamento do instante do que por medo. Quando abro, foco a mais patética das personagens. Até vestido colorido e peruca de sisal ela trazia. A Mulher-Gorila do século 21 não passa de um número cômico dos mais rudimentares. Um palhaço ensaiado para ridicularizar minha intenção, banalizar minha inútil tentativa de recuperar um passado. Quase me convence de que o palhaço não era exatamente ele.
Monga, a Mulher-Gorila que assustou, intrigou e habitou a fantasia da minha geração mudou.Tomou a direção do pedagogicamente correto, rezando mais nas cartilhas de Piaget do que nas de Zé do Caixão. Não me dei à paciência de avaliar a qualidade. Deixei o espetáculo antes do final, me sentindo ludibriado e com vontade de pegar a ponte aérea. Meu medo agora era outro. Não do sobrenatural, nem de ser o palhaço daquele sábado, daquele circo. Mas tive pavor de continuar a perder, principalmente tempo. Se a Mulher-Gorila já não existe nem entre o charme e a elegância das decadências, o que poderá acontecer quando eu voltar a Copacabana?

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