quarta-feira, outubro 19, 2005

Dedicatórias

Não me lembro com quem aprendi que dedicatória não se escreve em livros de autoria alheia. Sei que depois de aprender, nunca mais escrevi. Que ousadia é essa que permite a nós, simples leitores, escrever na página de rosto do livro dos outros? De fato, dedicatórias só deveriam ser permitidas ao próprio autor.
Porém, contradição à parte, pouco se compara à alegria de ver uma manifestação de carinho, amizade ou amor nas primeiras páginas de um livro. E se tal homenagem vem de quem escreveu a obra e imprimiu seu nome à frente do texto, a felicidade é multiplicada pela tiragem da edição. O problema é que alguns escritores homenageiam namoradas, paixões que não sabiam passageiras, e quando passam, não querem o registro nem como referência de inspiração. Normalmente por mágoa ou desilusão. Aí, a sensação de “tarde demais” ganha dimensões vitalícias. A obra leva para a eternidade um nome que nem uma centena de novos amores consegue apagar.
Conheço o exemplo de um escritor já falecido, com quem tive a oportunidade de dividir a mesa de um bar em Belo Horizonte, na década de 80. Autor de uma obra extensa, com mais de 40 títulos publicados e traduzidos em grande parte do mundo, aquele ícone da literatura brasileira estava acompanhado da esposa, com quem era casado há tempo suficiente para afirmar que não confiava em produto local: para onde viajava levava seu uísque e sua mulher. Madura, mas dona de um corpo de fazer inveja a muita top model da época, aquele metro e noventa de mulher, com um par de olhos azuis capaz de ofuscar o céu da capital mineira, chegou, na juventude, a ser imortalizada numa música de Tom Jobim. Imagine em quantas páginas ela não foi citada e o quanto da obra desse escritor não foi ofertado a ela.
Pouco depois deste encontro me mudei para a Europa e nunca mais estive com o casal. De volta ao Brasil, quase dez anos mais tarde, li com indisfarçável surpresa uma discreta nota na imprensa sobre a separação dos dois. Da perplexidade ao susto: e agora, o que fazer com as citações, com as dedicatórias, com a desconfiança quanto aos produtos locais? Foi quando aprendi que se declarar amor é difícil, desfazer a declaração é tarefa para uma junta de alquimistas.
Brilhante e determinado como foi em toda a sua carreira, o coerente autor não vacilou. Solitário e de posse apenas de uma caneta revisou todas as suas crônicas, contos, novelas e romances, eliminando cada uma das citações à ex-companheira. Só assim se sentiu à vontade para entregar ao editor a última versão das suas obras completas. Quanto às edições anteriores, não havia o que fazer. Deixou ao tempo e às traças o encargo de amarelar, corroer e fazer desaparecer definitivamente todas as letras da sua decepção.